Viver em sociedade

Ontem sucedeu um episódio deveras curioso no supermercado. Estava na fila para pagar, tinha as minhas compras no tapete da caixa, e assim que a pessoa que estava à minha frente se despachou, eu avancei para a outra ponta da caixa de modo a receber as compras e poder pagá-las. Nesse preciso momento estava um homem atrás de mim, com um saco de peixe fresco na mão, que prontamente entrega à menina da caixa. Esta, no meio de uma conversa amigável com o homem, pega no peixe, pesa e faz a conta, deixando as minhas compras no tapete; demoraram cerca de um minuto ou dois a completar o processo. Durante o mesmo, eu encostei o cotovelo no painel de alarme, apoiei o queixo na mão e olhei fixamente para a menina. Reparei que começou a ficar incomodada, mas não reagiu. O homem do peixe seguiu em frente, passando por trás de mim, colocou o peixe num saco de compras e preparava-se para saír. A menina ia começar a pegar nas minhas compras como se as mesmas pertencessem ao cliente que estava mais atrás e o mesmo diz-lhe calmamente: “olhe que essas compras não são minhas!”. Só nesse momento a menina reparou em mim e perguntou se eram minhas, ao que respondi afirmativamente.
O homem do peixe, perguntou com um ar inocente “Ah, o senhor estava à minha frente?” ao que eu respondi com um sorriso sardónico acompanhado do meu sarcasmo habitual: “completamente!”.
Seguiram-se um pedido de desculpas por parte do homem do peixe, que eu aceitei calmamente com “não há problema, já está, já está!”. A menina da caixa, ainda muda para comigo, começou a fazer as contas, começando já a passar coisas que pertenciam às compras do cliente que estava mais atrás. Tive que interromper e dizer “isso já não é meu!”.
Só nessa altura ela se dignou a pedir-me desculpa e dizer que não tinha reparado em mim. Passei-me, deu-me a gosma e respondi ainda com muita calma: “não se preocupe que eu sou invisível!”. Paguei a conta, peguei nas compras e saí calmamente.

Detesto falta de educação, detesto incompetência muito mais quando a mesma é deliberada. Dizem-me que não devia ser tão severo, afinal a menina estava apenas distraída. Pois, eu não tenho culpa que ela esteja distraída, se eu me distraír no meu trabalho, a minha empresa arrisca-se a perder clientes que dão uma facturção extremamente choruda e eu perco o meu emprego.
Quanto à falta de educação, tenho vários episódios que relatam isso. Normalmente episódios de invasão do meu espaço pessoal. Como noutro dia, num centro comercial começo a subir as escadas rolantes e levo com um encontrão nas costas de um casalinho de namorados que estão completamente absortos do resto das pessoas. Automaticamente viro-me para trás e pergunto: “Estou bem aqui?”. Eles olharam para mim com um ar envergonhado e encolheram os ombros como quem pede desculpa.
Mais uma vez, talvez esteja a ser demasiado exigente ou demasiado severo, mas eu detesto que invadam o meu espaço pessoal. Viver em sociedade não é permitir que o invadam constantemente, viver em sociedade é saber respeitar o espaço dos outros. Eu nunca dei um encontrão noutra pessoa, cheguei a desviar-me de alguém de tal maneira que quase caía, mas não lhe dei o encontrão de ombro. Começo a ver que há cada vez menos civismo, menos educação e principalmente menos saber viver em sociedade..

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