Cachimbos e modas

Após quatro horas de trabalho seguidas, consegui finalmente ir ao átrio beber um café e fazer uma pausa. Com o café em cima da mesa, puxo calmamente da minha onça de tabaco e começo a encher o cachimbo, calcando suavemente enquanto absorvo o aroma adocicado. Já não fumava cachimbo há algum tempo, talvez meses passaram sem que eu tocasse nele; pois hoje apeteceu-me.
Sentir o sabor é uma experiência boa, agradável; uma mistura de doce quente com um amargo suave. Estou sentado numa cadeira futurista que se assemelha a tudo menos a uma cadeira normal, o que não faz com que deixe de ser confortável. Deito dois comprimidos de adoçante sobre o meu café ainda a fumegar e mexo tranquilamente pelo meio de duas ou três passas no cachimbo. O cheiro aromático do tabaco de cachimbo começa a preencher o ambiente, dissipando-se a poucos centímetros de mim. Ao olhar em meu redor, começo a reparar em colegas meus, aqueles a que eu chamo de “Engraxadores engravatados”, olham para mim com um ar de espanto. Supostamente, eu, com as minhas calças de sarja beige, com a minha t-shirt vermelha e sapatos de vela sem meias, deveria estar a fumar tabaco normal, cachimbo é coisa para doutores.
Quem disse? Agora só os doutores é que sabem apreciar um bom cachimbo? Muito pelo contrário, acho que muitos doutores que aí andam fumam cachimbo única e exclusivamente por causa de uma coisa chamada “status”, enquanto outros fazem o mesmo com charutos ou cigarrilhas. Pois é, infelizmente todos os estratos socio-económicos estão repletos de ovelhas, pertencentes ao mesmo rebanho. Se um doutor a
fumar cachimbo é moda, então todos os doutores fumam cachimbo (aqueles que fumam). Se de repente começar a ser moda um “crominho da bola” fumar charuto, então todos os “crominhos da bola” fumam charuto.
Acho que dá para perceber que eu detesto modas, coisas que só servem para as aparênias. Infelizmente vivemos numa sociedade de ovelhas em rebanho, ou então, peixes em cardume, em que todos seguem uma tendência imposta por alguém. E não me venham dizer que “eu não sigo tendência nenhuma” porque todos nós as seguimos. Eu tento sempre fugir às modas, visto-me conforme aquilo que gosto, e é o meu gosto, não é um gosto imposto por um qualquer estilista ou gestor de marketing. Mas nem sempre é possível fugir às modas, há sempre ou quase sempre uma peça de roupa ou acessório que está na moda.
Eu quando me refiro a ovelhinhas, são aquelas pessoas que são punks quando está na moda ser punk, mudam para betos quando entra na moda ser beto, aqueles que são laranjas quando ser laranja está na moda, mas no ano seguinte passam a ser rosas quando a moda muda. Aquelas pessoas que não têm qualquer personalidade própria, que são infinitamente influênciadas pelo que vêm nas revistas do jet-set ou nos programas de tv do jet-set.
Mas pior do que não ter personalidade própria, é o facto dessas pessoas julgarem que são muito únicas, e que têm de facto uma personalidade própria e forte. Acham que não são influênciáveis, mas vão a correr comprar um monte de camisas com cacchorros da nova colecção primavera-verão, só porque o vizinho já comprou, ou então porque o Simão Sabrosa também já comprou. Credo até ter um blog está na moda, toda a gente tem um. Eu lembro-me que quando comecei a escrever o meu primeiro blog em Agosto de 2003 havia cerca de quinhentos blogs Portugueses, não sei qual é a estatística presente, mas acredito que tenha triplicado.

Provavelmente receberei criticas severas a este post, principalmente vindas dos que eu chamo de ovelhas. Mas, como eu sempre disse: “O barrete só serve a quem a enfia”.

Post Scriptvm – Para quem se possa interessar, eu uso uma mistura de roupa clássica com roupa alternativa. A combinação de cores que eu faço é muito própria. Chego a usar calças de sarja beige, uma t-shirt branca e um casaco de cetim chinês, preto com um bordado à frente. Discreto e muito próprio.

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