Conto deprimente

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Ela raramente se lembra completamente da noite anterior, tem alguns flashes, algumas memórias confusas e muitas brancas; há certas horas ou minutos da noite anterior que desapareceram por completo da sua memória. De todas as vezes que isto lhe acontece ela diz que nunca mais volta a beber, mas há sempre um dia em que isto acontece novamente. Já é quase noite, ela dormiu o dia quase todo e nem deu pelo tempo passar; recorda-se vagamente de ter tomado um comprimido para a ressaca antes de se deitar, mas será que tomou mesmo? A sua cabeça anda à roda, as paredes parecem fugir; pensa em pedir ajuda, mas não sabe como fazê-lo.

Tudo começou na noite anterior, ela foi a um jantar com um grupo de amigos e amigas. Foi um jantar com muita comida, conversa animada, gargalhadas soltas e muita sangria. A meio do jantar já tinham marchado dois jarros de sangria entre ela e outras duas pessoas. Pediu-se a conta, beberam-se os digestivos enquanto os dois mais sóbrios faziam as contas para pagar o jantar, anotando quem já tinha pago ou não num pedaço da toalha de papel.

Sairam finalmente do restaurante e pararam à porta a discutir para onde iam a seguir. É claro que seria para uma discoteca qualquer, só restava saber qual delas no meio da miríade de discotecas que existem na noite Lisboeta. Ao fim de muita argumentação e muitos digestivos, desta vez pagos por quem os consumia, lá se decidiram pelo sítio. A discoteca era ali perto, foram todos a pé, a conversar animadamente, a brincar uns com os outros, casalinhos a distanciarem-se do grupo principal. Entraram na discoteca e passaram o resto da noite a beber e a dançar.

Sete e meia da manhã, já mais de metade do grupo tinha ido para casa, dormir, vomitar, ressacar, entre muitas outras coisas; ela era uma das resistentes, ficou até ao fim. Entre cada dança ia despejando Vodka com limão, uns atrás dos outros; o seu estado inebriado acentuava-se com a passagem do tempo, à medida que ia bebendo cada vez mais. Agora que já estava na hora de ir para casa já ela estava quase de rastos, apoiou-se no ombro dele e deixou-se carregar para o carro. Ele não bebeu uma gota de alcóol durante toda a noite, levou-a para o carro, sentou-a e conduziu-a de volta para casa.

Estacionou o carro, saiu calmamente e inspirou fundo; soube bem respirar ar puro depois de uma noite a respirar fumo de tabaco e não só. Deu a volta ao carro, abriu a porta do lado direito e ajudou-a a sair do carro, apoiando-a no seu ombro. Subiu seis lanços de escadas com ela apoiada no ombro direito, abriu com alguma dificuldade a porta de casa e entrou. Deitou-a na cama, tirou-lhe a roupa e tapou-a com a roupa da cama, dando-lhe um beijo na face em seguida. Foi à casa de banho buscar um balde para colocar ao lado da cama; não fosse ser preciso. Ele despiu-se, levou a roupa de ambos para o cesto da roupa suja, comeu qualquer coisa na cozinha enquanto observava a rua pela janela; àquela hora de sábado passava muito pouca gente na rua.

Ela começou a vomitar para dentro do balde, tudo o que era bebida que ainda estava no estômago dela, saiu cá para fora. Levantou ligeiramente a cabeça e olhou em direcção à porta do quarto e ouviu: “precisas de alguma coisa? Trouxe-te água” e ainda conseguiu vê-lo a pousar um copo de água com um guronsan a efervescer em cima da mesa de cabeceira; bebeu o preparado de uma assentada só e caiu na cama a dormir.

Ele tapou-a novamente, levou o balde e despejou-o na sanita, lavando-o depois na banheira. Sentou-se um pouco no sofá da sala a pensar, estando ao mesmo tempo atento a qualquer ruído que ela pudesse fazer. Deitou-se para o lado e adormeceu. Eram duas e meia da tarde quando voltou a acordar, levantou-se e foi ver como ela estava. Ela ainda estava profundamente a dormir, na mesma posição em que tinha caído na cama. Deu-lhe um beijo na face e deixou-a dormir. Tomou um banho, saiu para ir beber um café e fazer umas compras para mais logo, para o jantar. Voltou para casa carregado com dois sacos de compras, pão, manteiga, leite, sumos, fiambre, chá.

Seis e meia da tarde, ela abre os olhos, começa a tentar levantar a cabeça e a olhar à volta com aquele olhar de “onde estou? o que é que se passou?”. Ele apareceu no quarto a perguntar como é que ela se sentia e disse-lhe: “Tenho ali água a aquecer para um chá e torradas a fazer!”.

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