Dissertando

Assim de repente sem como nem porquê, deu-me uma repentina vontade de escrever; escrever tudo o que me vier à cabeça, sem me preocupar com pontuação ou sem qualquer “cuidado” com a escrita em si. Quero apenas deitar tudo cá para fora.

Sinto-me muito cansado, fisicamente cansado. Ontem fui a um dos melhores concertos da minha vida; se bem que foi apenas o terceiro concerto a que eu fui. Não pulei muito, estive a ver a banda cá em cima e ao lado, mas fartei-me de cantar, assobiar, abanar os braços; foi bom, muito bom. Mas o melhor de tudo foi ter ido ao concerto com a minha companheira, a pessoa que eu amo, a pessoa com quem partilho e quero continuar a partilhar a minha vida.

Estou a passar por uma fase de remodelação interior, estou a aprender a abrir-me a ela, a expor aquilo que sinto. Esta aprendizagem é feita num instante, a mudança faz-se num estalar de dedos. Ou assim deveria ser.
Tenho sido um espelho do que ela sente, em vez de dizer aquilo que eu sinto. Por vezes o meu estado de espírito coincidia com o dela, mas isso não é sempre assim. Por vezes vem-me uma resposta à cabeça e eu dou outra, colocando-me sempre a mim em segundo lugar. Aquilo que estou a aprender é a colocar-me em primeiro lugar e deixar sair tudo cá para fora.

Credo, não entendo, mas também não é para entender. Assim de repente conforme me apareceu a vontade de escrever, sofri um bloqueio completo. Bem, não é totalmente completo, porque senão nem sequer isto estava a escrever. Mas fiquei de facto bloqueado na escrita. O que me faz lembrar num projecto que debati noutro dia. O projecto consiste em escolher uma música de fundo e durante cinco minutos falar sobre um assunto qualquer para uma audiência. Ora pois a pessoa envolvida nesse projecto estava com algumas dificuldades em descobrir um assunto para falar. Lembrando-me eu das várias vezes em que queria escrever e não sabia sobre o quê, acabando por escrever sobre não ter assunto de escrita, sugeri o mesmo. Disse-lhe para falar sobre não ter assunto para falar. Isto é apenas o ponto de começo, é um ponto de partida por onde a nossa mente pode depois desenvolver e seguir outros caminhos, outros raciocínios. Às tantas acabamos por estar a falar em algo que já não tem nada a ver com o inicio, mas são sempre sucessões lógicas. Mesmo que mudemos de assunto radicalmente, há sempre uma ligação lógica entre um assunto e o seguinte. O que normalmente acontece é que a única pessoa que consegue ver essa ligação lógica (ou, por vezes emocional) é a pessoa que está a escrever ou a discursar; normalmente a audiência tem alguma dificuldade em estabelecer uma relação entre um assunto e outro.

Referi-me acima a “ligação lógica” ou “emocional”. Com isto refiro-me a algo que nos faz relacionar ambos os assuntos.

Por exemplo: Estamos a falar de um automóvel que recentemente comprámos, dizemos que ele é isto ou aquilo, explicamos as características mecânicas do automóvel e ao falarmos do motor, lembramo-nos logicamente de peças móveis, rodas dentadas e outras coisas do género. Assim que nos surge na mente todas estas coisas, lembramo-nos do elevador do nosso prédio, que avariou. E assim estávamos inicialmente a falar de um assunto que era o automóvel e passamos a falar de outro assunto, o elevador avariado. Para a pessoa que escreve ou discursa, isto é absolutamente lógico, ambos os assuntos estão relacionados, embora nós estabeleçamos a relação inconscientemente. Este é um exemplo de uma ligação lógica, racional.

Outro exemplo: Estamos a falar de receitas de culinária e a dado momento falamos em bolos. À medida que vamos percorrendo a lista de ingredientes, falamos, por exemplo, em chocolate. Nesse preciso momento, surge-nos na mente a lembrança dos bombons que a nossa namorada nos ofereceu e que estavam estragados. E de repente já estamos a falar na caixa de bombons que nos deixou com uma descarga intestinal enorme. Aqui, tal como no exemplo anterior há uma ligação lógica e racional entre ambos os assuntos, no entanto a ligação emocional é mais forte.

Posto isto, conclui-se que existe sempre uma ligação entre dois assuntos, seja numa carta, num discurso, numa tese escrita. Essa ligação é por vezes lógica, outras vezes emocional e ainda pode ser também uma mistura de lógico e emocional.

Quando comecei a escrever este texto não fazia a mínima ideia de como iria acabá-lo, reparo agora que já tinha saudades destas minhas dissertações. Adoro dissertações. Começou por ser uma simples descarga mental, deitando cá para fora tudo aquilo que se passava na minha mente e evoluiu para uma mini tese sobre as mudanças de assunto numa dissertação. Passou por vários assuntos, os quais não tinha nada a ver uns com os outros, para quem lê, mas que para mim estão ligados entre eles, seja essa ligação racional, emocional ou de ambas as maneiras.

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