Sintra – Reprise

  • by

Fui a Sintra dar uma volta. Estava a precisar disto já há algum tempo. Sentia toda aquela zona a chamar por mim. Bem, não era toda, eram apenas algumas partes da serra de Sintra.
Comecei a tarde por ir até ao Guincho ver o mar. Foi uma visita breve, o mar estava um pouco bravo, estava vento; tirei algumas fotografias e segui caminho.
Enquanto seguia pela estrada do Guincho até Sintra, vejo um caminho de lama com uma placa a dizer, reserva florestal protegida de Sintra (ou algo parecido). Decidi entrar por aí, estou cansado das estradas convencionais, é muito mais excitante seguir por caminhos desconhecidos, sem saber onde vão dar. Buracos, pedras, ramos, valetas, precipícios e vários cruzamentos passados, chego a uma derradeira encruzilhada.
Tinha três hipóteses para escolher (de carro, claro. Porque a pé ainda havia mais uma). Voltar para trás e tentar outras direcções noutros cruzamentos anteriores, Convento dos Capuchos ou Castelo dos Mouros. Voltar para trás, não me estava a apetecer. Convento dos Capuchos, nem pensar, é um sítio que… bem, descreverei o que senti nos Capuchos noutra crónica. Segui então para o Castelo dos Mouros.
Todo o caminho até chegar a esta encruzilhada foi uma aventura, o carro derrapava-me em zonas com mais lama, estava a ver que apanhava um atalho pela encosta abaixo. O silêncio era ensudecedor. Na verdade não havia silêncio, mas também não havia nenhum dos sons que nos são familiares no dia-a-dia. À esquerda, uma encosta descendente, à direita a encosta ascendente, ambas cobertas de árvores, de tal maneira que não se consguia ver mais do que cem metros. O sol brilhava por entre as folhas, pequenos raios batiam no vidro do carro, em algumas ocasiões fazendo reflexo ofuscando-me por completo. Segui sempre com marcha lenta, admirava a paisagem, ouvia música barroca e senti a minha comunhão com a serra. Ao chegar è encruzilhada deparo-me com a placa que indicava quais os caminhos que podia seguir e li o nome do sítio onde estava. Nessa altura, todo o meu sentir me fez sentido. Eu sentia uma tranquilidade enorme, mas ao mesmo tempo estava nervoso, com medo, sem saber para onde estava a ir, sem saber se me tinha perdido ou não. Eu estava no Monte da Lua.
O caminho até ao Castelo dos Mouros foi bastante pacífico, eu até diria que foi um pouco de uma desilusão, demasiado civilizado; estrada alcatroada, já com largura suficiente para passarem dois carros, algum trânsito…
Cheguei ao Castelo e após sentir um pouco o ambiente, decidi não entrar. Ainda encontrei dois gatos, dos quais uma veio ter comigo a miar. Fiz-lhe umas festas, dei-lhe umas bolachas que tinha no carro e segui caminho.
Andei às voltas pelos arredores e centro histórico da cidade de Sintra; mais uma vez muito trânsito. Estava a ver onde é que a minha condução me levava e acabou por acontecer o inevitável. Estacionei mesmo à porta da Quinta da Regaleira.
Paguei o meu bilhete, entrei e fui directo à gruta do lago. Da última vez que lá estive, não tinha levado lanterna, mas desta vez fui prevenido.
Entrei por ali adentro, com medo do desconhecido. No entanto, quanto mais medo tinha mais me aventurava, mais avançava. O som da água a escorrer pelas paredes, pingos a caírem do tecto e a fazer eco por toda a gruta, o sentir de água a caír no pescoço, na cabeça. São sensações indescritíveis. Aquela gruta é labiríntica mas ninguém se perde ali, porque todos os caminhos vão dar a algum sítio.
Foi uma tarde fantástica.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *