O Pardal

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O Outouno acabou de rebentar, folhas castanhas cobrem o amarelo seco dos campos, alguns farrapos de núvens vagueiam pelo céu tapando ocasionalmente o brilho do sol. Uma brisa suave e húmida brinca com as árvores, provocando um som tranquilizante e fazendo voar mais algumas folhas em tons de castanho, amarelo e vermelho.
Misturado com o som do vento, ouço os pássaros a chilrear; perto do moínho vejo um rebanho de ovelhas e cabras que se vão mantendo juntas com os latidos do cão pastor. Corro alegremente até ao moínho, chutando e levantando as folhas pelo caminho. Quando lá chego, sento-me numa rocha grande com os joelhos encostados ao peito enquanto vou atirando pequenos seixos tentando acertar nas árvores que estão mais longe. Tiro o meu gorro de pele de ovelha e pouso-o no chão ao lado dos meus pés. Era um gorro que eu adorava, parecido com o gorro do Davy Crocket.
De repente chega um pardalito que pousa ao meu lado sem qualquer preocupação, como se eu não estivesse ali. Levo a mão ao meu bloso do peito das jardineiras de ganga e vou tirando os grãos de milho que lá tenho dentro de um saco. Guardei-os ali depois de ter ido à mercearia comprá-los para a minha mãe me fazer pipocas.
Devagarinho pouso a minha mão aberta, virada para cima com um punhado de grãos. O pardalito afasta-se um pouco, olha para mim meio desconfiado e passo a passo aproxima-se da minha mão. Sinto o biquinho dele a tocar-me na palma da mão à medida que ele apanha os grãos e faço um esforço para não retirar a mão, aquilo faz cócegas.
Ao longe ouço a minha mãe a chamar-me para ir jantar, olho para trás e lá está ela, na varanda do quarto andar a acenar e a chamar por mim. Levanto-me e vou a correr até casa, sujo de lama com as calças rotas e conto alegremente o que se passou à minha mãe.
No dia seguinte à mesma hora, saio de casa com mais um saco de milho e vou a correr até ao moínho na esperança de encontrar novamente o pardal. Sento-me na mesma rocha, tiro um punhado de milho do saco e espero ansiosamente que o pardal volte, mas ele não volta. Está por aí a voar em liberdade, penso eu. Quando me levanto para voltar para casa reparo em algo que se mexe no meio da relva alta. Ao ver melhor o que é, vejo o pardal que tinha visto no dia anterior, deitado e quase imóvel. Numa aflição terrível, pego nele com as minhas mãos pequenas e levanto-o perto do meu peito. Ainda estava quente. Levei-o para casa o mais depressa que pude sem o abanar muito e mostro-o à minha mãe. Tentamos alimentá-lo, mas ele não come, damos-lhe água mas também não bebe. Arranjei-lhe uma caixa de cartão, daquelas onde se embrulham os bolos, forrei-a com algodão, num cantinho coloco milho e arroz e deito o pardal no meio do algodão. A minha mãe mandou-me para a cama, mas eu não queria, não conseguia dormir, estava demasiado preocupado com o pardal.Algures a meio da noite acabei eventualmente por adormecer, abraçado à caixa com o pardal lá dentro.
No dia seguinte acordei e olhei ansiosamente para dentro da caixa, uma parte do milho tinha desaparecido mas o pardal já estava frio, morto. Chorei, chamei a minha mãe e chorei. A minha mãe tentou consolar-me o máximo que foi possível, mas eu estava inconsolável.
Pegámos na caixa e levámo-la até ao moínho, perto da rocha onde tinha encontrado o pardal e aí eu cavei um buraco e enterrei o pardal. Despedi-me dele e deixei um montinho de milho no sítio onde o enterrei. Este foi o meu primeiro contacto directo com a morte. Foi uma dor que não consigo descrever e ainda hoje me doi ver qualquer animal a sofrer.
Pode ser apenas imaginação minha, mas alguns dias depois, voltei ao sítio onde enterrei o pardal e só naquele sítio, no meio da lama, ao lado da rocha, estavam a rebentar várias novas plantinhas. Verdes e pequeninas. E aí eu percebi que o pardal continou a viver naquelas plantas.

Esta história é verídica. Está um pouco “embelezada” mas aconteceu na minha vida, eu não me lembro qual era a minha idade, mas lembro-me bem das imagens. Chorei a escrever isto, foi a minha despedida ao pardal. Uma despedida que não fiz na altura porque não sabia como.
Comecei por escrever um conto imaginário e quando dei por mim estava a reviver a minha infância e a escrever sobre ela. É muito curioso isto.

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