O Desconhecido

Acabei de ver lá em baixo no jardim um pardalito a passear pelo meio dos caminhos que percorrem o jardim, várias pessoas conversam enquanto fumam os seus cigarros e bebm os seus cafés.
Era um pássaro pequenino, mas muito confiante. Saltitava por cima da relva de um lado para o outro, dando bicadas aqui e ali; de quando em quando levantava a cabeça e olhava à sua volta para ver se alguém se aproximava. Sentei-me no banco e fiquei ali a observar o pasarito.
Saltinhos e bicadinhas e o pardalito continuava a olhar à volta até que, olhou para mim fixamente. Olhei de volta e senti que o pardalito estava a olhar para mim como se me estivesse a observar. Mas é claro que estava a observar-me, não faço a mínima ideia do que é que ele estava a pensar, mas que estava a observar-me, isso estava.
O pardalito olhava para mim, andava de um lado para o outro e a cada saltinho que dava aproximava-se de mim. Cada vez mais perto, sem medo e cheio de confiança. Admirei o pardalito pela sua segurança, pela sua confiança; ali estava ele, um passarito pequenino a aproximar-se de mim, um homem grande, uma potencial ameaça.
Sim, é isso mesmo, uma potencial ameaça, porque na verdade não sou ameaça para o pardalito, não lhe quero mal nenhum. Talvez o pardalito tenha sentido isso e tenha resolvido aproximar-se de mim. Ou então foi mesmo corajoso e mesmo sabendo que eu poderia ser uma ameaça, aproximou-se.

Muitas vezes ao longo das nossas vidas vemos ameaças onde elas não existem, ou melhor, vemos potenciais ameaças. No emprego, na rua, até em pessoas que nos são próximas. Quando alguém perto de nós tem uma atitude que não entendemos, há uma tendência instintiva de nos defendermos; não há ali nenhum ataque, não há nenhuma ameaça visível, no entanto defendemo-nos.
Isto acontece porque não entendemos, porque desconhecemos o que se está a passar. E algumas vezes, mesmo conhecendo muito bem a pessoa, sabendo exactamente o que é que se está a passar e porque motivo está a ter esta ou aquela atitude, duvidamos do nosso próprio instinto e damos sempre a possibilidade de não ser aquilo que estamos a pensar e então defendemo-nos.
O que é que nos leva então a defendermo-nos de uma ameaça que não está lá, de um ataque que não existe? É simples, defendemo-nos do desconhecido. Desde sempre que o homem tem medo do desconhecido. Existem sempre algumas pessoas destemidas e aventureiras que vão explorar o desconhecido, mas nunca o fazem sem medo; conseguem ultrapassar o medo, lidar com ele e seguir em frente.
Temos portanto medo do desconhecido.

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