O diálogo.

Sou um sobre-pensador, penso e repenso em tudo. Faço filmes na minha cabeça dignos de uma produção de hollywood. Tudo começa com um sentimento. Sinto qualquer coisa, identifico-a e logo aí começa o meu longo mono-diálogo mental:

– Será que o que sinto é verdade?
– Sim, é verdade, estás senti-lo.
– Sim, claro que estás a senti-lo ou a sentir algo, e não será apenas uma questão de achar que gostas só porque estás sozinho há algum tempo?
– Como assim?
– Simples, sentes-te atraído, pura e simplesmente? Ou a necessidade de estar com alguém é tanta que achas que estás atraído?
– Sinto-me atraído…. E sinto falta de estar.
– Mau, não podes sentir as duas coisas ao mesmo tempo.
– Quem disse? Claro que posso.
– Não é possível.
– É pois. Eu posso estar com necessidade de estar com alguém e principalmente sinto-me atraído porque é realmente isso que sinto.
– Isso não faz sentido nenhum.
– Vê as coisas por esta perspectiva: Sentes-te atraído por mais alguém?
– Não.
– Achas que isso seria possível no tempo presente?
– Não.
– Então aí tens. Sinto-me atraído por ela.
– Ok, dou-te essa. E que mais? Sentes-te atraído por ela e ..?
– E.. não sei.
– Como não sabes?
– Não sei… Ela é uma pessoa que me atrai.
– É bonita.
– Sim, muito. Embora a beleza exterior seja extremamente subjectiva… “eye of the beholder” etc.
– Certo, concordo. Portanto, é bonita e mais?
– Nao sei bem. Ainda não a conheço bem. É inteligente, sensível, tem um sorriso espectacular e um sentido de humor fantástico.
– Se não a conheces como sabes isso tudo?
– Eu não a conheço bem, mas já estive com ela e deu para perceber estas coisas.
– Ah. Então e já a convidaste para um café ou um passeio? Sei lá, para se conhecerem melhor.
– Ainda não.
– Proque não? O que é que te prende?
– Nada e tudo. É muita coisa.
– Como muita coisa? É só um café, nada mais. Tens medo?
– Não… Sim… Talvez…
– Bom… Decide-te. Como é? Sim ou não.
– Sim. Tenho.
– De que tens medo?
– De a perder.
– Como perdê-la? São amigos?
– Somos.
– Há muito tempo?
– Não. Mas isso importa?
– Bem visto, o tempo não quer dizer nada. Por vezes fica-se a conhecer mais de uma pessoa num dia ou dois do que numa vida inteira. Anyway, se te sentes assim tão atraído porque não te atiras de cabeça? Convida-a para um café. Apenas isso.
– E no entanto, como sabes, as nossas decisões são sempre ou quase sempre baseadas na nossa bagagem. Se há um dia cinzento em que saímos à rua sem guarda-chuva e nos molhamos, noutro dia cinzento já levamos guarda-chuva. E eu já me atirei de cabeça assim várias vezes e a cabeçada não foi nada agradável.
– Ah, tu afinal tens medo de tua cabeçada.
– Sim, também e medo de a perder é real. Ela é uma pessoa especial. E vai na volta está apenas de passagem. Mas não sei disso, nem quero saber. Sei apenas que me sinto atraído por ela.
– E que mal te faz uma cabeçada? Tu até tens a mania de dar cabeçadas na parede para relaxar? Além disso, já houve uma vez em que te rendeste ao medo, esperaste demasiado e quando finalemente fizeste algo já era tarde demais.
– Opá, sabes tãio bem como eu que a nossa bagagem é pesadota.
– Sim, sei.. por isso te digo: larga o peso. Deixa cair tudo. Baixa as defesas. Fala. Comunica.
– Dizes isso como se fosse tão fácil.
– E não é?
– Não. Há arranques. Há começos. E há interrupções e eu calo-me.
– Explica melhor.
– Começo a encher-me de coragem, começo a expôr-me, aos meus sentimentos e sou interrompido e calo-me.
– Mas calas-te porquê?
– As interrupções são certamente sinais. Se calhar não é suposto eu falar sobre isto. Se calar é melhor guardar isto para mim até desaparecer. Assim não se magoa ninguém.
– Sabes bem que isso não é verdade. Se não te abrires e não falares, se fechares isso dentro de ti magoas-te a ti próprio. E isso irá continuar a magoar-te até desaparecer.
– Acho que tens razão.
– Então e, se não consegues falar, que tal escrever qualquer coisa?
– Não é isso que estou a fazer agora? Mas olha que a comunicação escrita pode ser muito facilmente mal-interpretada. A pessoa que está a ler sente os seus sentimentos no que lê e não o que o escritor sente.
– Certo, no entanto, para algumas pessoas é mais fácil escrever do que falar. Para ti por exemplo.
– Verdade, para mim é mais fácil escrever.

É um facto, eu sinto-me atraído por ti. O que é isto?! Não te sei dizer, é apenas aquilo que eu sinto. A tua companhia atrai-me. O que é que vou fazer? Vou aproveitar todo o tempo que tiver contigo para te conhecer. E no futuro? Não sei, quero saborear a viagem.