Chiça penico

São para aí umas quatro da manhã e ainda não fui dormir; pois claro, estou sem sono.
Resolvi fazer uma “limpeza” no meu blog. Apaguei posts antigos que já não faziam qualquer sentido, re-categorizei outros como memórias. Vasculhei por todos os quase seiscentos posts que tenho neste blog e encontrei coisas que vão até 2005. Lembro-me que comecei a escrever de uma forma regular no dia 23 de Agosto de 2003, no Blogger. No entanto perdi esses dois anos de escrita, sei que os apaguei e não o fiz por mim; foi uma fase negra da minha vida. Continuei sempre a escrever, a deitar cá para fora tudo aquilo que passava pela minha cabeça, em blocos de notas que tenho perdidos cá em casa ou em folhas soltas que já perdi há muito tempo.
Lembro-me que gostava mesmo de escrever. E ainda gosto. Estou lentamente a recuperar o meu gosto pela escrita. Ele nunca se foi embora, simplesmente esteve adormecido durante um tempo e agora estou a acordá-lo.
Sento-me aqui com o tradicional “milk and cookies” (é mais bolacha maria, mas o efeito é o mesmo) enquanto escrevo este texto e sinto a minha mente a ganhar velocidade. Os meus pensamentos formam-se mais rápido que as frases e muito mais rápido que a capacidade que tenho de as escrever, no entanto eu escrevo, largo tudo para aqui.

Pequeno à-parte: tenho estado a tentar não utilizar a palavra “mas”. É uma palavra com demasiado peso e normalmente é uma palavra que anula as coisas. Quando utilizada, tudo o que vem antes do “mas” perde significado, é anulado.
Por exemplo: “Eu gosto de fruta mas …” Não, afinal não gostas de fruta. Não gostas de qualquer maneira. É uma questão de neuro-linguística… pancas.. “this boy has issues”

Anyway, onde é que eu ia? Ah, sim… a escrita. Juntamente com compôr música, pintar e fotografar (e praticamente tudo o que seja um processo criativo), eu adoro escrever. Não é algo que eu goste desde pequeno, comecei a escrever os meus diários já em adulto, nas raras ocasiões em que não tinha algum compromisso social. Não sei onde andam, provavelmente foram para o lixo em alguma altura. Os únicos diários que tenho ainda hoje remontam apenas ao final dos anos 90. Costumava escrevê-los nas minhas noites solitárias a bordo de um navio no meio de um oceano.

Essa foi uma altura bastante solitária da minha vida. Na verdade, grande parte da minha vida foi solitária. Pelo menos a partir dos meus doze anos. Na escola tinha os meus colegas de turma, mas nenhum deles eu considerava um amigo, simplesmente não havia ligação, não se criaram laços. Eu era um outsider. Demasiado estranho para fazer parte de qualquer tribo. Até aos quatorze anos eu tinha a companhia dos cães de rua quando saia da escola, alimentava-os e brincava com eles, sem pedir nada em troca. E eles acompanhavam-me da escola para casa e vice-versa, todos os dias. Protegiam-me.
Aos quinze, mudei de casa, fui para um colégio e ainda assim não tinha amigos no colégio. Mentira. Eu tive uma amiga no colégio. Ela era, tal como eu, demasiado estranha para se inserir em qualquer grupo, formámos o nosso grupo. Estávamos juntos em todas as aulas, sempre na conversa um com o outro, ao ponto dos professores terem que nos separar porque falávamos demasiado. Ambos éramos repetentes, a matéria que nos estavam a querer ensinar já estava aprendida, tínhamos muito mais interesse um no outro do que na matéria. Acho que o deixava os profs furiosos era quando nos perguntavam se sabíamos o que eles tinham acabado de explicar e um de nós repetia as palavras deles uma por uma sem falhar nada. Nunca estive com ela fora do colégio, lembro-me que ela tinha um pai “severo” e que não a deixava sair para lado nenhum. Além disso, o colégio era longe de onde cada um de nós morava e por seu lado nós morávamos longe um do outro. Curtimos os dois durante a viagem de finalistas e depois acabou o colégio e nunca mais nos vimos.

Entre os quinze e os dezasseis anos, conheci no sítio onde morava os meus amigos que ainda hoje o são. As poucas pessoas neste mundo que, à excepção da família, me conhecem tal e qual como sou. E ainda assim há coisas sobre mim que eles desconhecem. Não é porque eu não queira contar, é apenas porque eles não querem saber, gostam de mim e aceitam-me tal qual como estou e sou.
Íamos sair todos juntos, passávamos férias juntos, noitadas, festas de anos, jantares, tudo. Entretanto continuei a crescer, sempre o outsider agora com a minha tribo. Entretanto, aos vinte entrei para a marinha para cumprir o serviço militar obrigatório. Tirei especialidade, o que implicava ficar lá dez meses em vez dos quatro meses originais. Os dez meses transformaram-se em dezasseis que depois acabaram por ser oito anos, quatro dos quais embarcado num navio.
Durante esses oito anos, fartei-me de viajar, conheci meio mundo, outras culturas e nos poucos tempos que tinha livres estava com os meus amigos. Jantares, serões em casa uns dos outros com todo o tipo de jogos ou diversões. Foi nessa altura que conheci a Rute. Ela trabalhava no mesmo sítio que o meu melhor amigo, dividia o apartamento com duas amigas e uma bela noite, lá fomos a casa da Rute para um jantar e um serão de “verdade ou consequencia”. Nessa altura criaram-se laços. Ela era diferente, mas eu consegui vê-la tal qual como ela é hoje, embora eu ache que nem ela tinha consciência do que se iria tornar. Uma mentora, amiga, protectora, presente. Tivémos serões de copos, jogos de tabuleiro, cozinhámos para a malta toda, chegámos a jogar ao quarto escuro numa passagem de ano. Bons tempos…

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