Solidão

Sinto-me só. Estou rodeado e acompanhado de pessoas maravilhosas, algumas delas fisicamente distantes mas sempre presentes. E no entanto sinto-me só.
Não é uma solidão desesperante, não é um drama nem tão pouco sou uma vítima. Sinto falta de um toque, um beijo, um olhar cúmplice e profundo, um abraço, uma palavra ao ouvido. E por sentir falta disto tudo, sinto-me só.

Sei que nada posso fazer com este sentir portanto limito-me a aceitá-lo, a integrar isto onde quer que seja. Sei que tudo é possível e que não faço a mínima ideia do que é que vai acontecer amanhã e no entanto agora… sinto-me só.

Se calhar o que tantos poetas dizem é verdade. É preciso sofrer para poder criar, escrever, compôr música. Não acredito nisso e no entanto quando me sinto só é quando escrevo mais. Não é verdade; também escrevo mais quando me sinto eufórico, com borboletas no estômago, quando estou apaixonado. Não é o caso agora.

Hoje fui ao meu porto de abrigo, aquele bar de praia que tantas vezes me acolheu. Muitas vezes acompanhado e tantas vezes só, com os meus pensamentos e sentimentos, com as minhas neuras. O som das ondas lá em baixo na praia, um dos meus blocos de notas e lá estava eu a escrever.

Lembro-me de ter passado uma noite inteira sentado no meu carro, no parque de estacionamento do bar, a escrever e a admirar o mar. Eram dez da noite do dia 31 de Dezembro de 2003, estava em casa com uma senhora neura e resolvi ir ao meu porto de abrigo. O bar estava fechado, claro, e o parque de estacionamento estava quase vazio. Naquela altura aquilo era apenas um terreno de terra batida onde as pessoas estacionavam. Estavam lá três carros com os vidros embaciados. Estacionei virado para o mar e comecei a admirar as ondas, havia meia-lua visível reflectida na água; quarto crescente. O tempo passou, os carros saíram, vieram outros carros, num deles estava uma pessoa a ver o mar, tal como eu. Apercebi-me rapidamente que não era o único a passar o ano assim e no entanto isso não me trouxe qualquer conforto. Eram quase quatro da manhã quando me cansei de escrever e voltei para casa.

Recusei um monte de convites para festas de fim de ano, não estava com cabeça ou espírito para festas cheias de gente. Sentia-me só e não podia fazer nada em relação a isso.

E agora? Agora, sinto-me só. Não me sinto triste, sinto apenas uma ligeira neura de solidão e está tudo bem.

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