O filho que não foi.

Acho que chegou o momento de escrever sobre o filho que esteve para nascer mas não nasceu.

Algures no final de 2002 estava numa relação de “amizade colorida” com uma mulher casada. Fazíamos as coisas às escondidas e eu, completamente desmiolado deixei-me cair em tudo. A minha luxúria falava mais alto. Desde o início que deixei bem claro que não queria nada mais do que aquilo no entanto assumi total responsabilidade pelo meu papel no meio de tanta confusão. Havia química, não haja dúvida, mas eu não tinha qualquer desejo de perseguir uma relação prolongada com ela. Nunca fui de coisas pequensa e fogazes, mas naquela altura eu cedi aos meus desejos mais básicos. Alguns meses antes eu tinha acabado uma relação e fiquei “a bater mal” com isso e quando conheci esta mulher não resisti ao meu desejo e fui com ela mesmo sabendo que ela era casada. A coisa ainda durou uns meses, com ela sempre a insistir e eu sempre a resistir a algo mais.
As coisas passaram, aconteceram e eu acabei por pôr um ponto final na coisa. Não era justo para ela, nem para mim. Eu não iria dar-lhe mais do que aquilo e ela merecia mais do que eu podia dar na altura. No dia em que eu terminei a relação, ela contou-me que estava grávida e que tinha feito um aborto.

Lembro-me claramente, como se fosse hoje, de ter ficado em choque, lágrimas escorriam-me sem parar. Ela esteve grávida de mim, fez um aborto e eu não tive qualquer voto na matéria. A dor que aquilo me provocou foi tanta que se eu não tivesse decidido terminar a relação aquilo teria sido o ponto final em tudo.

Até hoje eu não sei se foi verdade ou se ela me mentiu para me forçar a ficar com ela. Eu acreditei que foi verdade. Eu teria assumido a paternidade e toda a responsabilidade perante aquela criança. Sempre quis ser pai, não daquela maneira, mas se tivesse que ser assim seria um super pai.

Não lhe guardo qualquer rancor, não a culpo de nada, assumi a minha responsabilidade em tudo o que se passou mas não voltei a estar com ela depois daquele dia. A dor foi indescritível e cada vez que eu estivesse com ela iria lembrar-me do filho que era para ser mas não foi.

Cometi muitos erros ao longo da minha vida, magoei outras pessoas sem intenção. Acho que todos nós fizémos coisas destas em algum ponto da nossa vida. Este episódio foi uma lição de vida para mim.

Eu não escolhi se era menino ou menina, simplesmente senti. Ainda que não tivesse nascido, senti a sua energia e dei-lhe um nome.

Tiago.

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