Memórias distantes

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Há quatorze anos atrás, depois da meia-noite do dia 31 de dezembro eu escrevi isto enquanto observava o mar junto ao bar dos gémeos:

Mais um ano que passou. Passam onze minutos da meia-noite e acabei de chegar ao meu canto… Sou iluminado por fogo de artifício, está aqui mais gente do que eu esperava…Estou ainda com uma mistura enorme de sentimentos… Em bem sabia que isto ia dar explosão… Durante o caminho para aqui, a adrenalina que existia devido à ocasião misturou-se com os meus sentimentos de saudade, melancolia e solidão… A combinação de tantos sentimentos contraditórios deu uma violenta explosão de raiva… Raiva com a vida, com a sociedade, com tanta injustiça… Mas, agora que cheguei aqui, vejo o mar e acalmei. Desapareceu a adrenalina, a raiva e ficou apenas a saudade e a melancolia…

Ouço uma música que é até bastante alegre e cheia de esperança… devia alegrar-me, mas não consigo. E a música vai assim:
“Um dia tudo volta para o seu lugar. Um dia vai ficar como devia estar…”
Era tão bom poder acreditar nisto.. Eu quero acreditar, mas não consigo. É algo que me transcende, é mais forte do que eu…

Penso nos meus amigos… Uns estão a passar o ano com as namoradas, outros com a família e ainda outros numa qualquer festa longe de Lisboa… Espero que estejam a divertir-se… Eu divirto-me à minha maneira. Como me disse uma amiga hoje: “Tenho o mar, tenho música, tenho paz e sossego, tenho-me a mim… não preciso de mais”

Estou a enganar-me a mim próprio, eu sei… mas é bom pensar assim… isto no fundo é uma questão de hábito. Com o tempo habituo-me a isto e depois não quero outra coisa… Pff. sou tão lírico.
O lirismo é uma das minhas facetas… no fundo eu sou é contraditório. Sou um pessimista e ao mesmo tempo tento sempre ver o lado positivo das coisas. Claro que a maior parte das vezes eu vejo o lado positivo para os outros e não para mim… Sou um sonhador, um idealista, tenho uma intuição pessimista/realista que raramente se engana…

Vou mudar de cd. Já continuo a escrever…

Ah.. Susana Félix, excelente…

Estou a ouvir uma música que parece adequar-se perfeitamente a mim e a este local… “Lugar Encantado”

Sinto qualquer coisa líquida a escorrer pelo rosto, tem um gosto salgado. Ardem-me os olhos… curiosamente não tenho o nariz ranhoso.

Começam a chegar mais carros, estou a ficar sem paz e sossego… Não posso fazer nada, é um local público.

O mar hoje está calmíssimo, quase não há vaga. De vez em quando sinto o meu coração a dar um batimento mais forte, em consonancia com alguns suspiros perdidos… Uma inspiração mais forte para sentir a humidade nocturna e a maresia. Um olhar atento a cada pormenor das fracas mas constantes ondas
Estando aqui, jogo com os três sentidos: visão, audição e olfacto. Daqui a pouco vou andar descalço na areia molhada, já não o faço há muito tempo… tempo a mais… sentir a água fria nos meus pés e os arrepios a percorrerem o meu corpo.. Um arrepio diferente daquele que se sente ao ouvir “aquela” música…

É definitivamente muito diferente de um arrepio provocado por um toque suave na nuca, uma mão a brincar com o cabelo, um beijo meigo, um sentir de duas mãos unidas com dedos entrelaçados, um abraço forte e reconfortante, um sentir de outro coração a bater junto ao nosso, um olhar cúmplice, uma intimidade partilhada.

Estou cansado, sem forças… estou farto de ansear por isto tudo e não o poder ter. Vou dormir. Amanhã é mais um dia.

Eu, às 00h58 de 01.01.2004

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