(inner) Spring cleaning

Vivemos actualmente uma época em que opiniões divergentes provocam zanga, raiva, agressão, entre outras coisas. Creio que sempre foi assim, no entanto agora tudo é amplificado pela televisão e pela internet com as suas redes (anti-)sociais. Há alguns anos atrás havia opiniões contraditórias, discussões e até mesmo violência por causa disso, no entanto raramente saía fora da localidade do acontecimento. Hoje em dia, há algo que acontece num país qualquer que provoca reacções nas populações do mundo inteiro.

Estava para começar a escrever uma longa dissertação sobre tudo aquilo que penso em relação ao racismo sistémico que estamos a ver acontecer em muitos sítios e como algumas pessoas se aproveitam disso para travar as suas “batalhas” pessoais noutros sítios, mas não o vou fazer. Creio que não iria contribuir com nada de útil, principalmente porque aquilo que vejo é uma “guerra” bilateral em que ambas as partes defendem a teoria de “estás connosco ou estás contra nós” e eu não me considero nem de um lado nem do outro.

Em vez disso vou virar o meu foco para outras coisas… Coisas que stão relacionadas com, ou melhor, são causadas pela dualidade de que falei acima.

Havendo esta situação bilateral, tenho no meu círculo de conhecimentos e amizades, dois grupos opostos. De um lado tenho grupos que apoiam uma determinada posição e do outro tenho grupos que apoiam a posição oposta. O que ambos os grupos não se aperceberam ainda (acho eu) é que são tão opostos que se tocam. A posição que defendem é tão generalista e inflexível que se as analisarmos racionalmente verificamos que são extremamente semelhantes, sendo a única diferença que uma defende que o mundo é de uma cor e a outra que o mundo é de outra cor. Felizmente eu não conheço pessoas que me colocam numa posição de ter que escolher “eu ou o outro”, até porque essas pessoas seriam automaticamente excluídas de qualquer escolha que eu fizesse.

Posto isto, coloca-se uma dúvida que se poderá chamar de “existêncial”. Algumas das pessoas que conheço, apesar de não me obrigarem a escolher (activamente), apoiam um discurso ou tomam uma posição que não me agrada muito. Eu não tenho muito a ver com as opções das outras pessoas, muito menos quando não me afectam directamente, no entanto sinto-me incomodado (para não dizer coisas piores), quando essas posições afectam directamente de uma forma muito negativa outras pessoas que poderão ou não fazer parte do meu círculo de “contactos”. Quando tenho pessoas que sei que são boas pessoas, com boas intenções a defender um discurso que incita à violência começo a questionar seriamente se as quero manter contacto com eles.

Por um lado, retirá-los da minha vida deixar-me-ia bastante mais tranquilo, no entanto, há aquele velho ditado que diz: “mantém os teus amigos por perto e os teus inimigos ainda mais perto”.

Penso naquilo que posso fazer. Posso convencê-los a ver a razão e o bom senso? Se calhar não. Posso talvez fazê-los mudar de opinião apenas para não terem tanta “raiva” pela “oposição”? Não sei se é possível. Tentativas de debate são maioritariamente inúteis, há sempre argumentos “imbatíveis” de ambos os lados. Ambos os lados estão plenamente convencidos que são donos da verdade suprema.

Por outro lado, diz-se que “ficarmos calados” é fazermos parte do problema e compactuarmos com o inimigo. Mas isso é muito fácil de dizer. As coisas não são preto no branco. Isto não é nem nunca foi um caso de “sim ou sopas”. Toda a situação é por si extremamente complexa. Além disso, desatar “à porrada” a todos os que não concordam comigo não é solução para nada, isso só vai criar mais “anti-corpos”, mais guerra, mais porrada.

Creio que a melhor solução, pelo menos para mim, é retirar-me eu da vida das pessoas que me incomodam. Afastar-me daquilo que me entristesse e sobre o qual não tenho qualquer controlo. Portanto…

Acho que o meu reduzido círculo de amizades e conhecimentos vai começar a ficar ainda mais pequeno. Creio que está na hora de fazer a minha “spring cleaning” interior.