A criança interior

Todos nós fomos crianças e todos nós temos a nossa criança interior.

Isto até pode parecer algo demasiado esotérico, no entanto, se pensarmos bem é até muito lógico. Ora, senão vejamos:

Antes de sermos o que somos hoje, já fomos criança. O que aconteceu foi que nós crescemos, amadurecemos (ou não). No entanto, apesar de termos crescido, a pessoa que éramos em criança ainda é a mesma pessoa hoje, na sua essência.

Quando por vezes agimos ou reagimos de uma forma que não nos faz sentido enquanto adultos, pode-se dizer que é a nossa criança interior a agir/reagir.

Muitas vezes acontece fazermos uma “birra” porque não temos o que queremos. Quando isso acontece é porque é a nossa criança interior a reagir e não o nosso eu adulto a reagir.

Ora, quando uma criança fica triste porque não tem o que quer, como é que nós lidamos com isso? Normalmente tenhamos acarinhar a criança, reconfortá-la e explicar porque é que ela não pode ter o que quer.

Então se assim é, porque é que não aplicamos essa filosofia à nossa criança interior? Creio que se reconhecermos a nossa criança interior, a acarinharmos e explicar-lhe que é natural muitas vezes estarmos tristes, tal como é natural muitas vezes estarmos felizes, talvez dessa forma comece a ser o nosso adulto a reagir em vez da criança.

Sei que isto não é nada fácil, exige muito auto-conhecimento e acima de tudo muita consciência do que sentimos e como o sentimos.

Há algum tempo a minha criança interior, que só por si já estava descontrolada e abandonada, ficou completamente desprotegida e como tal reagiu à bruta. Foi uma luta enorme entre o meu eu adulto e o meu eu criança. Eu não fazia ideia como iria resolver as coisas, andava perdido.

Comecei a trabalhar comigo próprio, com a minha criança, reconheci-me, aceitei-me, entendi-me e protegi-me. Pode-se dizer que no espaço de um ano cresci dez anos. Ganhei uma consciência que não tinha antes sobre os meus sentimentos. Eu sabia que eles estavam lá mas não só não tinha consciência plena deles como não os aceitava, não queria assumir o que sentia.

Adquiri também um grau enorme de aceitação que antes não existia. E atenção, não vamos confundir aceitação com conformismo ou resignação.

Simplesmente sei o que quero, sei o que desejo, sei o que me faz falta e faço os possíveis para obter o que quero, só não vou desesperar.

Todo este trabalho me tem deixado muito mais tranquilo do que era habitual comigo. No entanto, continuo o mesmo “louco” de sempre. A minha criança interior está bem presente no meu dia-a-dia, brincalhão, bem-disposto, puro.