{"id":1448,"date":"2018-09-25T23:40:36","date_gmt":"2018-09-25T22:40:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.monogatari.info\/?p=1448"},"modified":"2018-09-25T23:40:36","modified_gmt":"2018-09-25T22:40:36","slug":"diario-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/monogatari.info\/index.php\/2018\/09\/25\/diario-de-guerra\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de Guerra"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Onze de Junho de 1998<\/h2>\n\n\n\n<p>o navio ainda est\u00e1 atracado na Base Naval de Lisboa, s\u00e3o nove da manh\u00e3 e eu acabei de chegar. Segundo a imforma\u00e7\u00e3o que temos largamos \u00e0s onze e meia&#8230; vamos para a guerra, para onde j\u00e1 estiv\u00e9mos e onde tantos morreram&#8230; Guin\u00e9 Bissau.<\/p>\n\n\n\n<p>O Pa\u00eds est\u00e1 um caos, guerra civil, desta vez n\u00e3o vamos para combatre, mas temos ordens para responder em caso de ataque. Desta vez vamos l\u00e1 buscar refugiados Portugueses e Guineenses, lev\u00e1-los para Cabo Verde&#8230; Ainda tenho dores nos ombros por causa da faina de muni\u00e7\u00f5es e mantimentos de ontem \u00e0 tarde. A guarni\u00e7\u00e3o est\u00e1 praticamente toda no cais a fazer as despedidas, mulheres, filhos, m\u00e3es e pais que vieram dizer um adeus ao seu marinheiro. Eu fiz as minhas despedidas em casa, apenas o meu Pai veio aqui despedir-se&#8230; esteve aqui no navio h\u00e1 pouco. Nunca o tinha visto t\u00e3o assustado. Ele sabe que eu sei tomar conta de mim, mas mesmo assim diz-me para ter cuidado&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Sei que vou para um Pa\u00eds que est\u00e1 em guerra, sei bem que nos vamos meter mesmo no meio dela, no entanto n\u00e3o tenho medo&#8230; Estou estranhamente calmo, em contraste com o resto do pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o onze e meia em ponto, nos altifalantes do navio ouve-se a voz t\u00e3o esperada: &#8220;Vasco da Gama Guarni\u00e7\u00e3o! Faina geral&#8221;. Est\u00e1 na hora, cada um vai para o seu posto, Vamos para a guerra.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dezasseis de Junho<\/h2>\n\n\n\n<p>Estamos na foz do Rio Geba a aguardar ordens e a assistir \u00e0 guerra que prosseguia pa\u00eds adentro&#8230; Aquilo que n\u00f3s vimos na televis\u00e3o durante a guerra do Golfo, era quase tipo filme. Aqui ouviam-se os tiros ao longe, as explos\u00f5es, rajadas passavam em ambos os sentidos. Eu tinha um lugar de camarote para uma guerra e n\u00e3o era nada agrad\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Daqui para a frente as datas ficaram confusas. Lembro-me de quase tudo o que se passou, pormenores, situa\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o me recordo das datas.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve um dia em que eu estava de quarto e tinha ido \u00e0 ponte entregar mensagens ao Oficial de servi\u00e7o e enquanto ele via o servi\u00e7o eu sai para a asa da ponte de estibordo&#8230; ainda est\u00e1vamos a navegar nas \u00e1guas do Geba e vindo do nada ou\u00e7o o som de um obus de morteiro a cair. eu estava com os bra\u00e7os apoiados no parapeito e vejo todos \u00e0 minha volta a correr que nem loucos. Eu n\u00e3o me mexi um mil\u00edmetro. Talvez eu tivesse pensado que, se o morteiro me ca\u00edsse em cima nem sequer sentia nada. Vi n\u00edtidamente o obus a cair na \u00e1gua a mais ou menos cinquenta, talvez cem metros de dist\u00e2ncia. Felizmente n\u00e3o explodiu&#8230; talvez n\u00e3o estivesse aqui hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco depois voltei para o centro de comunica\u00e7\u00f5es e chegou uma mensagem de Lisboa com as nossas ordens. A vantagem de trabalhar em comunica\u00e7\u00f5es \u00e9 que somos os primeiros a saber de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos que ir a terra apanhar um grupo de refugiados.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez que o cais n\u00e3o tem comprimento nem profundidade suficiente para podermos atracar, os nossos fuzileiros v\u00e3o em zebros (botes de borracha) para ir buscar os refugiados. A principio os Zebros podem n\u00e3o parecer grande coisa, mas em quatro horas trouxemos cerca de quatrocentos refugiados para bordo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Com os refugiados a bordo, seguimos para Cabo Verde, onde cheg\u00e1mos cerca de trinta e seis horas depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante este caminho, durante as minhas horas de folga ao servi\u00e7o de comunica\u00e7\u00f5es do navio, eu estava no hangar de helic\u00f3pteros a ajudar os refugiados. Distrubui mantas, fruta, pacotes de leite com chocolate para crian\u00e7as e gra\u00fados, p\u00e3o com manteiga e fiambre. Dei palavras de conforto a quem precisava. Como eu, estava toda a guarni\u00e7\u00e3o do navio, a ajudar, alimentar, cuidar.<\/p>\n\n\n\n<p>O navio tem normalmente uma guarni\u00e7\u00e3o de duzentos homens, com um destacamento extra de fuzileiros e agora cerca de 400 refugiados deitados no ch\u00e3o do hangar. Alguns deles ainda se queixaram e exigiram uma cama ao que lhes foi respondido que se quisessem podiam voltar para a Guin\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas mas coisas se passaram neste m\u00eas e meio em que l\u00e1 estiv\u00e9mos, no total conseguimos retirar mais de mil refugiados para Cabo Verde. Al\u00e9m dos fuzileiros, lev\u00e1mos tamb\u00e9m uma pequena equipa dos G.O.E. que tiveram como fun\u00e7\u00e3o entrar pela cidade de Bissau adentro e escoltar o embaixador e respectivos adidos para o navio.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu assisti a tudo de bordo, enviei e recebi toda a informa\u00e7\u00e3o do Comando Naval em Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estive na guerra e no entanto estive na guerra<\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu &#8211; 23.01.2004<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Onze de Junho de 1998 o navio ainda est\u00e1 atracado na Base Naval de Lisboa, s\u00e3o nove da manh\u00e3 e eu acabei de chegar. Segundo a imforma\u00e7\u00e3o que temos largamos \u00e0s onze e meia&#8230; vamos para a guerra, para onde j\u00e1 estiv\u00e9mos e onde tantos morreram&#8230; Guin\u00e9 Bissau. 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