Chego finalmente a casa, o meu gato vem receber-me à porta como é habitual, um pouco de colo, uns mimos e uns ronronares.
Não me apetece ir para o computador, aliás há semanas que não lhe toco a não ser para ver filmes.
Estico-me na cama com a ventoinha ligada, sempre suaviza o calor, e tento dormir. Já que não tenho vontade de fazer nada, posso dormir. No entanto não durmo. Fecho os olhos, mil duzentos e trinta e sete pensamentos viajam pela minha cabeça. Não, agora são mil quatrocentos e sessenta e dois.
Ainda estou inquieto, não diria irrequieto porque até estou muito sossegado, mas a minha mente não está.
O gato esteve aqui deitado ao meu colo por uns minutos, mas preferiu ir deitar-se ao sol que entra pela janela aberta. Talvez ele não goste da ventoinha. Ele está ali ao fundo deitado na sua almofada cor de rosa banhada pelo sol e olha para mim com aquele olhar intenso.
Apercebe-se que estou a olhar para ele; disfarça, faz de conta que não sei de nada. Lambe-se e coça-se. Volta a olhar intensamente para mim. Nem sequer pisca os olhos a não ser naquele momento em que os fecha devagarinho como que a mandar-me um mimo.
Levantou-se e veio deitar-se ao meu colo novamente.
Ele sabe exactamente como me sinto, o que sinto. Não preciso de lhe explicar nada, está tudo entendido.
